quinta-feira, 25 de junho de 2009


"Beijou-a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou-se a beira da cama e pôs-se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia.
- Que é isto? - indagou Mathieu.
Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou-se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo.
- Sou eu - disse Marcelle, sem erguer a cabeça.
Mathieu voltou-se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados.
- Onde é que encontraste isto?
- Num álbum. É do Verão de 28.
Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou-o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou:
- Então agora andas a mexer nos álbuns de família?
- Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá.
Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou-lha das mãos.
Sentou-se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou-se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago:
- Como eu era engraçada - disse."


(A Idade da Razão, Jean-Paul Sartre)



terça-feira, 23 de junho de 2009

Trecho IV

“Aqui ninguém me conhece.
É um lugar bastante agradável, principalmente pelo fato de ser quase deserto. Alguns não gostam disso, mas considero quase um paraíso, depois de ter vivido dezenove anos cercado de gente, quase sem conseguir respirar.
E aqui faz muito sol. É... Bem diferente de lá.
Os dias têm passado devagar. Não há muito a ser feito no bar, o pessoal da vila não é muito chegado a bebidas, por causa da religião, além de quase todos serem muito caseiros. E viajantes quase não passam...
Apesar disso, hoje me dei conta de que não tenho o direito de me tranqüilizar. Simithr perguntou-me pela manhã o que pretendo fazer de minha vida. Fiquei ofendido com a pergunta, pois senti que estava dando um toque para eu me mandar. Na verdade, sei que ele não quis dizer isso, mas precisei arranjar algum motivo para brigar.
Sempre me esqueço que terei que ir embora daqui, mesmo tendo chegado há tão pouco tempo. Foi tempo o suficiente para me refugiar daquelas lembranças... Por isso, fiquei furioso.
Ou, talvez, nem seja exatamente por isso. De qualquer jeito, sei que o velho não tem culpa, seja qual for o motivo.
E pra falar a verdade, é isso o que quero. Partir. Não quero abusar mais da paciência dos outros. O problema é para onde ir... Não tenho mais uma casa para voltar, e se muitos me virem andando por aí, na certa vão começar a me caçar. E posso estar exausto, sem vontade de lutar e me esforçar outra vez, mas me recuso a ser preso. Sei claramente que, ao menos isso, eu não mereço. Mesmo que, na realidade, eu não me importasse nem um pouco com todas aquelas pessoas... Mesmo que eu mal consiga me odiar por isso... e por todo o resto.
Se bem que a convivência com alguém que ainda não me dá as costas, mesmo sabendo que fiz algo sério, e nem mesmo exige saber o que foi... com certeza é pior do que viver em uma prisão. Não consigo encarar o velho. Por sinal, nunca pensei que fosse tão difícil encarar alguém... E a boa vontade dele, que deveria ser um consolo para mim, só está me sufocando.
Se eu tivesse um pouco mais de coragem, arrumaria minhas coisas e iria embora, sem nem me despedir. E fugiria para algum lugar... qualquer um. Onde existisse ninguém. Não era isso o que eu tanto desejava, mesmo antes de tudo acontecer? Não odiava minha vida com todas as minhas forças, e desejava ardentemente uma mudança, qualquer que fosse?
Sempre foi assim... mas eu nunca fiz nada.”


escrito em 27/03/07 §

sábado, 20 de junho de 2009

Trecho III

esqueci de mencionar: o Trecho I foi escrito no dia 24/08/2006. O Trecho II foi escrito em 26/11/2006.

“E lá estava ela, uma figura envolta em branco.
Não sei por quanto tempo permaneci só a observando. Me parecia algo quase sobrenatural. Mas pelo modo como estava sentada... O modo com que seus cabelos caíam sobre seus ombros, como uma cascata... eu podia sentir como estava viva. Como encontrava uma grande dificuldade em dizer qualquer coisa. Como mais difícil ainda era permanecer em seu silêncio sufocado. Como era intensa a dor que estava sentindo...
E eu não soube o que fazer. Porque por impulso corri até o palácio, esperando encontra-la desse jeito, mas mesmo assim a cena me surpreendera de tal maneira que estava paralisado. Pois sabia que uma dor como aquela jamais me atingira.
Era algo tão humano... Tão fácil de se sentir...”

escrito em 06/12/2006 §

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Trecho II

“Próxima a serra da montanha de Airot, havia uma pequena vila. Localizada no interior do estado, era tão pequena que não deveria possuir mais de quinze casas. Sendo encontrada ao lado de uma estrada de terra, em geral era ocupada por viajantes que lá passavam uma noite ou duas para descansar. Porém, o número de viajantes era escasso. A estrada da montanha era conhecida por seus deslizamentos, e, portanto, considerada perigosa: assim, poucos se atreviam a percorrê-la.
Dessa forma, os moradores da vila, que dependiam da agricultura e do dinheiro dos viajantes para sobreviver, eram pessoas extremamente simples. Não havia mais de um mercado na vila, e apenas uma pousada.
Porém, próxima do cemitério local, havia uma construção que parecia completamente fora de lugar – um bar. Uma placa presa em uma de suas desgastadas paredes anunciava em letras garrafais: “O’Connel”. Logo abaixo da placa, havia uma porta de madeira que costumava encontrar-se aberta, pois sua maçaneta estava quebrada.
Como os clientes do bar costumavam ser pessoas bastante simples, como os moradores da vila ou os viajantes, que em sua maioria eram mercadores, o dono do bar e seu único garçom não se incomodavam em manter o local arrumado. Do lado de dentro, as mesas de madeira ficavam espalhadas desordenadamente pelos lados. Já as cadeiras costumavam ficar apoiadas sobre as mesas, como forma de não atrapalharem na limpeza do chão – limpeza esta que parecia não existir, pois o chão era coberto de migalhas, poeira, e, dependendo da movimentação do bar, cacos de vidro e bebidas derramadas.
O balcão não era muito diferente. Feito de madeira, assim como todos os móveis que se encontravam ali, sua superfície era úmida de bebidas. As altas cadeiras que o circulavam tinham o acento forrado com almofadas furadas de couro marrom (que um dia talvez tivesse sido vermelho). O balconista, também dono do bar, vivia passando um pano encardido sobre os móveis, mas parecia apenas piorar a situação com isso. Era um sujeito baixo. Usava sempre a mesma camisa listrada. Seu cabelo castanho já mostrava alguns sinais de velhice, sendo esbranquiçado e ligeiramente calvo, e suas sobrancelhas grossas apoiadas em seus olhos castanhos quase pretos, lhe davam a impressão de ser um homem severo e mal-humorado. Mas a verdade é que era uma pessoa bondosa e paciente, que não poupava sorrisos e boa educação em momento algum. Seu nome era Simithr Ralli.
As paredes do bar eram vazias, exceto por alguns velhos quadros de homens usando chapéus particularmente estranhos. Estes homens faziam parte de uma família nobre, que por gerações havia sido milionária – mas apesar do título de nobreza ter permanecido, a família decaíra após anos de riquezas. Seu último membro restante era Simithr. Olhar para os quadros lhe trazia profunda tristeza, mas se recusava a retirá-los dali, apesar de seus clientes aconselharem-no de fazê-lo freqüentemente. A única pessoa que não lhe dava estes freqüentes conselhos era o garçom do bar.
Parecendo tão fora de lugar quanto o bar naquela pequena vila, o garçom era um jovem alto, em seus dezenove anos de idade, com um belo porte físico. Seu nome era Raja Kraven. As garotas da vila que apareciam no bar de vez em quando, certamente só o faziam para vê-lo: e tinham um bom motivo para isso, pois o garçom possuía um rosto muito atraente, cabelos loiro-escuro lisos, um sorriso charmoso e olhos cinzentos. O mais impressionante era que tinha uma aparência muito limpa, para o meio em que vivia. Seu paletó preto lhe dava um ar de inteligência e charme invejáveis.
Devido a sua aparência, as pessoas não imaginavam que fosse um sujeito fechado, muitas vezes até arrogante. Não se importava em ser grosso e mal educado com qualquer um que o incomodasse, mesmo um cliente.
Apesar de serem pessoas muito diferentes, o dono do bar e seu jovem garçom se davam muito bem. Havia boatos de que eram parentes distantes secretamente, pois isso justificava que Kraven também não apoiasse que tirassem os quadros da família Ralli das paredes do bar. O fato era que, estranhamente, ninguém conseguia lembrar ao certo do dia em que os dois haviam aparecido na vila, há três anos. Era algo que despertava a curiosidade de todos, e por isso perguntavam a Simithr e a Kraven com freqüência sobre o ocorrido, mas nunca recebiam uma boa resposta: ambos sempre desconversavam, fingiam não ouvir ou respondiam “É uma longa história”. De modo que, com o tempo, as pessoas cansaram de perguntar e o assunto foi meramente esquecido.”

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Trecho I

“Ela me perguntou o que eu achava do vestido. Respondi que era bonito, mas não entendo dessas coisas. Geralmente eu teria apenas encolhido os ombros... Só que o elogio saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar. Deve ser porque ela me perguntou com um sorriso tão alegre... Gosto muito disso, do fato dela estar sempre sorrindo. Nunca a vi triste, nunca a vi chorar. Pergunto-me se esconde mágoas... Sei que sim. Mas nunca conheci alguém assim, um labirinto entre risos e olhares. Olhares, pois de vez em quando sinto algo diferente no modo com que olha o mundo à sua volta. Como se fosse de uma maneira mais profunda, como se desse um valor especial a tudo e todos. Iëva já comentou isso comigo, e é verdade.
Pensando melhor agora, deve ser por isso que os dois se dão bem: de uma maneira ou de outra, ambos são estranhos. Iëva por ter um vasto conhecimento sobre quase tudo o que existe, não sei como aprendeu tanto em apenas dezesseis anos de vida.
E ela, por ser tão... A palavra me foge agora, imagino que "simplória" não se encaixe muito bem... Eu diria que ela é simplória demais em sua complexidade. Eu não entendo, não entendo o que ela faz para me entender tão bem, para agir da forma certa em todas as situações, mesmo sem querer... E sempre com tanta facilidade.
Gostaria de entendê-la melhor... De me aproximar mais... De saber como fazê-lo...
De qualquer forma, às vezes me pego só a observando. Gosto de fazer isso, me trás certa paz... Não sei ao certo por qual motivo. Só sei que quero ter essa paz todos os dias, ao meu lado, em qualquer ocasião... Seria capaz de tudo para isso, pois acho que minha dor ao perdê-la, afinal, seria o mesmo que perder esse todo por completo, eternamente.”