“Próxima a serra da montanha de Airot, havia uma pequena vila. Localizada no interior do estado, era tão pequena que não deveria possuir mais de quinze casas. Sendo encontrada ao lado de uma estrada de terra, em geral era ocupada por viajantes que lá passavam uma noite ou duas para descansar. Porém, o número de viajantes era escasso. A estrada da montanha era conhecida por seus deslizamentos, e, portanto, considerada perigosa: assim, poucos se atreviam a percorrê-la.
Dessa forma, os moradores da vila, que dependiam da agricultura e do dinheiro dos viajantes para sobreviver, eram pessoas extremamente simples. Não havia mais de um mercado na vila, e apenas uma pousada.
Porém, próxima do cemitério local, havia uma construção que parecia completamente fora de lugar – um bar. Uma placa presa em uma de suas desgastadas paredes anunciava em letras garrafais: “O’Connel”. Logo abaixo da placa, havia uma porta de madeira que costumava encontrar-se aberta, pois sua maçaneta estava quebrada.
Como os clientes do bar costumavam ser pessoas bastante simples, como os moradores da vila ou os viajantes, que em sua maioria eram mercadores, o dono do bar e seu único garçom não se incomodavam em manter o local arrumado. Do lado de dentro, as mesas de madeira ficavam espalhadas desordenadamente pelos lados. Já as cadeiras costumavam ficar apoiadas sobre as mesas, como forma de não atrapalharem na limpeza do chão – limpeza esta que parecia não existir, pois o chão era coberto de migalhas, poeira, e, dependendo da movimentação do bar, cacos de vidro e bebidas derramadas.
O balcão não era muito diferente. Feito de madeira, assim como todos os móveis que se encontravam ali, sua superfície era úmida de bebidas. As altas cadeiras que o circulavam tinham o acento forrado com almofadas furadas de couro marrom (que um dia talvez tivesse sido vermelho). O balconista, também dono do bar, vivia passando um pano encardido sobre os móveis, mas parecia apenas piorar a situação com isso. Era um sujeito baixo. Usava sempre a mesma camisa listrada. Seu cabelo castanho já mostrava alguns sinais de velhice, sendo esbranquiçado e ligeiramente calvo, e suas sobrancelhas grossas apoiadas em seus olhos castanhos quase pretos, lhe davam a impressão de ser um homem severo e mal-humorado. Mas a verdade é que era uma pessoa bondosa e paciente, que não poupava sorrisos e boa educação em momento algum. Seu nome era Simithr Ralli.
As paredes do bar eram vazias, exceto por alguns velhos quadros de homens usando chapéus particularmente estranhos. Estes homens faziam parte de uma família nobre, que por gerações havia sido milionária – mas apesar do título de nobreza ter permanecido, a família decaíra após anos de riquezas. Seu último membro restante era Simithr. Olhar para os quadros lhe trazia profunda tristeza, mas se recusava a retirá-los dali, apesar de seus clientes aconselharem-no de fazê-lo freqüentemente. A única pessoa que não lhe dava estes freqüentes conselhos era o garçom do bar.
Parecendo tão fora de lugar quanto o bar naquela pequena vila, o garçom era um jovem alto, em seus dezenove anos de idade, com um belo porte físico. Seu nome era Raja Kraven. As garotas da vila que apareciam no bar de vez em quando, certamente só o faziam para vê-lo: e tinham um bom motivo para isso, pois o garçom possuía um rosto muito atraente, cabelos loiro-escuro lisos, um sorriso charmoso e olhos cinzentos. O mais impressionante era que tinha uma aparência muito limpa, para o meio em que vivia. Seu paletó preto lhe dava um ar de inteligência e charme invejáveis.
Devido a sua aparência, as pessoas não imaginavam que fosse um sujeito fechado, muitas vezes até arrogante. Não se importava em ser grosso e mal educado com qualquer um que o incomodasse, mesmo um cliente.
Apesar de serem pessoas muito diferentes, o dono do bar e seu jovem garçom se davam muito bem. Havia boatos de que eram parentes distantes secretamente, pois isso justificava que Kraven também não apoiasse que tirassem os quadros da família Ralli das paredes do bar. O fato era que, estranhamente, ninguém conseguia lembrar ao certo do dia em que os dois haviam aparecido na vila, há três anos. Era algo que despertava a curiosidade de todos, e por isso perguntavam a Simithr e a Kraven com freqüência sobre o ocorrido, mas nunca recebiam uma boa resposta: ambos sempre desconversavam, fingiam não ouvir ou respondiam “É uma longa história”. De modo que, com o tempo, as pessoas cansaram de perguntar e o assunto foi meramente esquecido.”