quinta-feira, 30 de julho de 2009

Faith In Chaos


Pi 1998: o primeiro filme do diretor Darren Aronofsky (Requiem Para Um Sonho). Cena de Max Cohen, gênio da matemática, em seu apartamento claustrofóbico, frequentemente invadido por formigas.
O filme é muito interessante e permite diversas interpretações. Vale a dica.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sonho


Eu era uma revolucionária. Sentia-me grande coisa com aquela espada, até o momento que subi as escadas e me deparei... comigo mesma. O tiro do soldado inimigo foi certeiro.
Chorei muito naquele dia. Minha escola estava sendo destruída. Um campo enorme de pequenas construções e árvores plantadas ordenadamente tomaram o lugar daquilo que um dia fora um lar para mim. Eu assistia tudo do alto de uma torre, chorando até me acabar, e não me importava com todos que corriam de volta. Sabia que ia me ferrar se ficasse ali chorando... E fiquei, do mesmo jeito.
Eu morri. Foram anos, ou talvez segundos, no meio da luz, me perguntando vagamente por que eu não virei a espada de forma que a arma caísse da mão do soldado. Às vezes alguma voz dizia alguma coisa, mas eu não percebia, até que uma em especial falou... Para falar a verdade, não me lembro mais o que ela disse. Só sei que assim eu pude acordar novamente. Onde era aquele lugar em que acordei?
Não foi tão ruim estar morta. Foi a primeira coisa que pensei. Foi incrivelmente natural e... Sim, eu era quase um nada com um pingo de consciência naquele momento, mas por ser um nada... o que me importava?
Hoje mesmo eu ia dormir, cheguei a me levantar do computador e a derramar um copo de suco de laranja no chão - talvez tudo isso seja uma grande e deslavada invenção. Chegaria a ser real... Enfim. Tudo tem certa relação. Há noites não durmo bem. Tenho pesadelos, sono inquieto, travesseiro duro, e fico com raiva da minha mãe quando estou sonâmbula, pensando que ela roubou todos os travesseiros bons. De fato, os travesseiros da minha mãe são bem macios, eu gostava de dormir no quarto dela quando era uma criança justamente por esse motivo.
Essa noite eu não queria me deitar... Porque, bem, sabia que não ia dormir. Sinto-me velha e cansada. Podre, com as juntas rangendo, dolorosas... Entediada. Mas não quero fazer nada, nem sair, nem ficar, nem trabalhar, nem assistir a um filme, ou ler, estudar, conversar... Não sei o que eu quero. Não estou me sentindo sozinha, não mesmo. Nem acompanhada. Somente vazia. É como se eu tivesse levado um tiro de um soldado inimigo. Quem sabe esse soldado tenha uma longa cicatriz em sua boca, como um grande sorriso.
O que importa é que meus ouvidos dão pontadas agudas de dor, enquanto imploram por mais. Fazem eu me esquecer de quem eu sou e do que sinto...
Mas bastou uma nota...

Essa noite eu sei que vou dormir bem."


escrito em 20/07/08 §
(porcamente escrito)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

Trecho VI

“Raja espiou por cima dos ombros, entediado. Em meio à luz bruxuleante da lareira, podia reconhecer a silhueta de Ieva – parado em frente ao Grande Relógio, esperando. Por um vago instante, a lembrança de um salão escuro e silencioso pareceu ganhar vida: e sentiu frio, a despeito das chamas que o aqueciam.
- Quero sair daqui. – disse em voz alta, mas esta não apareceu alcançar Ieva, que permaneceu imóvel e silencioso.
- Ei – insistiu Raja. Não obtendo resposta, sentiu a impaciência que o atormentava há dias reaparecer com força, e golpeou a mesa a sua frente com o punho fechado, perguntando com raiva: – O que está olhando?!
- Por que quer sair? – perguntou Ieva.
Dessa vez, Raja foi calado, percebendo ter caído em uma armadilha. Permaneceu observando as costas de Ieva, perguntando-se quantas vezes cairia no mesmo truque. Por fim, correu as mãos pelo rosto com força e as deixou descansar ali, escondendo seus olhos do salão.
- Até desanima tentar falar com você. – murmurou entre dentes. - Como você consegue ser insuportável...
Ieva voltou-se para ele, mas não parecia ofendido: na verdade, sorriu abertamente. Raja já estava começando a se acostumar com aquele sorriso – o que não o tornava menos desagradável.
- Não fique irritado: afinal, não precisa responder. – disse Ieva, sua voz soando serena.
Raja sorriu amargamente.
- Você pode até pensar que soa convincente com esse tom de voz de quem está disposto a me ajudar, mas eu não sou idiota. Sei muito bem qual é o seu jogo.
- Muito bem? – Ieva ergueu as sobrancelhas. – Então devo ter me enganado.
- O que quer dizer? – perguntou Raja nervoso, observando-o atentamente.
Ieva deu de ombros e caminhou até uma garrafa negra que se encontrava no console da lareira: “Imaginei que pensasse que sou um dos Canutos.” Apanhando a costumeira taça de cristal, despejou em seu interior o líquido rubro da garrafa. Vendo que Raja ficou em silêncio, acrescentou suavemente: “Você é extremamente previsível... É exatamente por seguir seus impulsos tolos que você está aqui, ou ainda não percebeu? Sugiro que se acalme.”
- Você não está em posição de me pedir uma coisa dessas. – disse Raja, tentando manter uma voz firme e cordial. – E pare de agir como se me conhecesse. Você não sabe quem...
- Sei. – interrompeu Ieva, seus olhos fixos na lareira. – Sei muito bem, Raja. Você é uma pessoa egoísta, que não sabe cuidar de si mesmo e que nos últimos anos manteve exatamente a mesma mentalidade tola e fraca de uma criança. O pior de tudo é que se ama tanto, idolatra cegamente este interior de fragilidades... Consegue até mesmo sacrificar os outros para se manter são e construir uma imagem própria idealizada. Pensa que esconde tudo isso? Qualquer um pode ver as rachaduras dessa casca que você pensa ser tão bem trabalhada.
Raja não se permitiu olhar para baixo, nem queria que seu rosto mostrasse nada além da inexpressão. Um misto furioso de sentimentos passava-se por sua cabeça, pois repentinamente odiou Ieva, odiou tudo o que havia escutado, pois era tudo uma mentira ridícula, uma fala ensaiada destinada a deixá-lo impotente e submisso. Sabia que Ieva queria apenas sentir que era superior. Sabia que estava frustrado por achá-lo tão idiota: era ate ridículo, amargamente engraçado... Esboçou o início de um sorriso irônico... Era cômico...
E sentiu-se vazio, ao perceber que era tudo verdade.
Baixou a cabeça. Odiou-se internamente por isso. Então olhou vagamente para Ieva, que levava lentamente a taça de cristal aos lábios... Fixou seus olhos no líquido escuro no interior da taça.
- O que é isso? – perguntou com desagrado, provavelmente pela milésima vez desde que se conheceram.
- Quer? – ofereceu Ieva com o sorriso de sempre.
Raja largou-se na cadeira e deixou a cabeça pender sob o pescoço, não se preocupando em responder.”

escrito em 21/07/09 §

terça-feira, 14 de julho de 2009

Trecho V

" (...) Chegando ao topo da ladeira, deparou com uma descida gigantesca e bastante inclinada. E lá embaixo, outra parte da cidade, recortada contra o crepúsculo.
Não conseguiria descrever porque a simples imagem apertou seu peito com uma pancada. Perdeu o ritmo da respiração. O ar estava pesado... poderia até mesmo esmagá-lo...
De repente, uma figura emergiu de uma esquina um pouco à sua frente. Alexandre estacou, imóvel.
Era a garota de cabelos loiros.
- Oi. – ofegou ela, também paralisada. Seu peito subia e descia e tinha o rosto corado. Parecia ter vindo correndo.
- ... Oi. – murmurou Alexandre, também ofegante, apesar de não ter corrido. Antes que chegasse a se perguntar por que a garota estivera correndo, pensou que deveria achar estranho vê-lo ali. Será que ela diria alguma coisa? Perguntaria por que saíra de casa?
Não, ocorreu ao garoto... Perguntaria por que naquele dia tivera vontade de sair.
Ela não sabia de nada. Aquela menina burra... Não o conhecia, nem sabia seu nome... Por que, afinal, o cumprimentara? Por que queria se intrometer em assuntos que não compreendia?
A garota só o observava, quieta e sem expressão em seus olhos castanhos. Alexandre, subitamente vendo-se irritado, não ligou se soaria mal educado ao perguntar:
- O que foi?
A menina deu de ombros.
- Nada. Só estava olhando.
O garoto continuou imóvel, e então suspirou. Bem, não era isso o que esperava. Mas ainda estava um pouco irritado, e deu de ombros também, só para fazer alguma coisa.
Logo, resolveu seguir seu caminho. Aquela conversa já o perturbara o suficiente, apesar de não encontrar um motivo real para alegar este fato.
Porém, ao dar as costas para a menina, se deu conta de que a sensação de sufoco que passara ao chegar ao topo da ladeira havia desaparecido."

escrito em 07/06/07 §


tenho que rever todos os textos, esse em especial...