terça-feira, 23 de junho de 2009

Trecho IV

“Aqui ninguém me conhece.
É um lugar bastante agradável, principalmente pelo fato de ser quase deserto. Alguns não gostam disso, mas considero quase um paraíso, depois de ter vivido dezenove anos cercado de gente, quase sem conseguir respirar.
E aqui faz muito sol. É... Bem diferente de lá.
Os dias têm passado devagar. Não há muito a ser feito no bar, o pessoal da vila não é muito chegado a bebidas, por causa da religião, além de quase todos serem muito caseiros. E viajantes quase não passam...
Apesar disso, hoje me dei conta de que não tenho o direito de me tranqüilizar. Simithr perguntou-me pela manhã o que pretendo fazer de minha vida. Fiquei ofendido com a pergunta, pois senti que estava dando um toque para eu me mandar. Na verdade, sei que ele não quis dizer isso, mas precisei arranjar algum motivo para brigar.
Sempre me esqueço que terei que ir embora daqui, mesmo tendo chegado há tão pouco tempo. Foi tempo o suficiente para me refugiar daquelas lembranças... Por isso, fiquei furioso.
Ou, talvez, nem seja exatamente por isso. De qualquer jeito, sei que o velho não tem culpa, seja qual for o motivo.
E pra falar a verdade, é isso o que quero. Partir. Não quero abusar mais da paciência dos outros. O problema é para onde ir... Não tenho mais uma casa para voltar, e se muitos me virem andando por aí, na certa vão começar a me caçar. E posso estar exausto, sem vontade de lutar e me esforçar outra vez, mas me recuso a ser preso. Sei claramente que, ao menos isso, eu não mereço. Mesmo que, na realidade, eu não me importasse nem um pouco com todas aquelas pessoas... Mesmo que eu mal consiga me odiar por isso... e por todo o resto.
Se bem que a convivência com alguém que ainda não me dá as costas, mesmo sabendo que fiz algo sério, e nem mesmo exige saber o que foi... com certeza é pior do que viver em uma prisão. Não consigo encarar o velho. Por sinal, nunca pensei que fosse tão difícil encarar alguém... E a boa vontade dele, que deveria ser um consolo para mim, só está me sufocando.
Se eu tivesse um pouco mais de coragem, arrumaria minhas coisas e iria embora, sem nem me despedir. E fugiria para algum lugar... qualquer um. Onde existisse ninguém. Não era isso o que eu tanto desejava, mesmo antes de tudo acontecer? Não odiava minha vida com todas as minhas forças, e desejava ardentemente uma mudança, qualquer que fosse?
Sempre foi assim... mas eu nunca fiz nada.”


escrito em 27/03/07 §