quinta-feira, 25 de junho de 2009


"Beijou-a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou-se a beira da cama e pôs-se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia.
- Que é isto? - indagou Mathieu.
Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou-se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo.
- Sou eu - disse Marcelle, sem erguer a cabeça.
Mathieu voltou-se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados.
- Onde é que encontraste isto?
- Num álbum. É do Verão de 28.
Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou-o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou:
- Então agora andas a mexer nos álbuns de família?
- Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá.
Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou-lha das mãos.
Sentou-se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou-se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago:
- Como eu era engraçada - disse."


(A Idade da Razão, Jean-Paul Sartre)