terça-feira, 21 de julho de 2009

Trecho VI

“Raja espiou por cima dos ombros, entediado. Em meio à luz bruxuleante da lareira, podia reconhecer a silhueta de Ieva – parado em frente ao Grande Relógio, esperando. Por um vago instante, a lembrança de um salão escuro e silencioso pareceu ganhar vida: e sentiu frio, a despeito das chamas que o aqueciam.
- Quero sair daqui. – disse em voz alta, mas esta não apareceu alcançar Ieva, que permaneceu imóvel e silencioso.
- Ei – insistiu Raja. Não obtendo resposta, sentiu a impaciência que o atormentava há dias reaparecer com força, e golpeou a mesa a sua frente com o punho fechado, perguntando com raiva: – O que está olhando?!
- Por que quer sair? – perguntou Ieva.
Dessa vez, Raja foi calado, percebendo ter caído em uma armadilha. Permaneceu observando as costas de Ieva, perguntando-se quantas vezes cairia no mesmo truque. Por fim, correu as mãos pelo rosto com força e as deixou descansar ali, escondendo seus olhos do salão.
- Até desanima tentar falar com você. – murmurou entre dentes. - Como você consegue ser insuportável...
Ieva voltou-se para ele, mas não parecia ofendido: na verdade, sorriu abertamente. Raja já estava começando a se acostumar com aquele sorriso – o que não o tornava menos desagradável.
- Não fique irritado: afinal, não precisa responder. – disse Ieva, sua voz soando serena.
Raja sorriu amargamente.
- Você pode até pensar que soa convincente com esse tom de voz de quem está disposto a me ajudar, mas eu não sou idiota. Sei muito bem qual é o seu jogo.
- Muito bem? – Ieva ergueu as sobrancelhas. – Então devo ter me enganado.
- O que quer dizer? – perguntou Raja nervoso, observando-o atentamente.
Ieva deu de ombros e caminhou até uma garrafa negra que se encontrava no console da lareira: “Imaginei que pensasse que sou um dos Canutos.” Apanhando a costumeira taça de cristal, despejou em seu interior o líquido rubro da garrafa. Vendo que Raja ficou em silêncio, acrescentou suavemente: “Você é extremamente previsível... É exatamente por seguir seus impulsos tolos que você está aqui, ou ainda não percebeu? Sugiro que se acalme.”
- Você não está em posição de me pedir uma coisa dessas. – disse Raja, tentando manter uma voz firme e cordial. – E pare de agir como se me conhecesse. Você não sabe quem...
- Sei. – interrompeu Ieva, seus olhos fixos na lareira. – Sei muito bem, Raja. Você é uma pessoa egoísta, que não sabe cuidar de si mesmo e que nos últimos anos manteve exatamente a mesma mentalidade tola e fraca de uma criança. O pior de tudo é que se ama tanto, idolatra cegamente este interior de fragilidades... Consegue até mesmo sacrificar os outros para se manter são e construir uma imagem própria idealizada. Pensa que esconde tudo isso? Qualquer um pode ver as rachaduras dessa casca que você pensa ser tão bem trabalhada.
Raja não se permitiu olhar para baixo, nem queria que seu rosto mostrasse nada além da inexpressão. Um misto furioso de sentimentos passava-se por sua cabeça, pois repentinamente odiou Ieva, odiou tudo o que havia escutado, pois era tudo uma mentira ridícula, uma fala ensaiada destinada a deixá-lo impotente e submisso. Sabia que Ieva queria apenas sentir que era superior. Sabia que estava frustrado por achá-lo tão idiota: era ate ridículo, amargamente engraçado... Esboçou o início de um sorriso irônico... Era cômico...
E sentiu-se vazio, ao perceber que era tudo verdade.
Baixou a cabeça. Odiou-se internamente por isso. Então olhou vagamente para Ieva, que levava lentamente a taça de cristal aos lábios... Fixou seus olhos no líquido escuro no interior da taça.
- O que é isso? – perguntou com desagrado, provavelmente pela milésima vez desde que se conheceram.
- Quer? – ofereceu Ieva com o sorriso de sempre.
Raja largou-se na cadeira e deixou a cabeça pender sob o pescoço, não se preocupando em responder.”

escrito em 21/07/09 §