domingo, 18 de outubro de 2009

Sorvete


sorvete na testa lalari la


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A Via Láctea

Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz
Quando tudo está perdido
sempre existe um caminho...
Mas não me diga isso.
Hoje a tristeza não é passageira, 
hoje fiquei com febre a tarde inteira
E quando chegar a noite, cada estrela parecerá uma lágrima...
Queria ser como os outros
e rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza das coisas comuns...
Mas não me diga isso.
É só hoje, e isso passa...
Só me deixe aqui quieto, 
isso passa.
Amanhã é um novo dia,
não é?
Eu nem sei porque me sinto assim.
Vem de repente um anjo triste perto de mim...
E essa febre que não passa... e meu sorriso sem graça...
Não me dê atenção,
Mas obrigado por pensar em mim.
Quando tudo está perdido, 
sempre existe uma luz.
Quando tudo está perdido,
sempre existe um caminho.
Quando tudo está perdido,
eu me sinto tão sozinho,
Quando tudo está perdido,
não quero mais ser quem eu sou...
Mas não me diga isso,
Não me dê atenção...
E obrigado por pensar em mim.


(Renato Russo)

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Amanhecer

Amanhecer

detalhe I

detalhe II



Hummm, na falta de textos...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Rabiscos

Alguns desenhos recentes só pro blog não morrer.

(mulher cabeçuda, lustre flutuante e toalha de estampa florida tosca)

(Anita Grey)

(Ana de novo!)


(a qualidade pode estar ruim porque peguei os desenhos da internet!)





domingo, 23 de agosto de 2009

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Faith In Chaos


Pi 1998: o primeiro filme do diretor Darren Aronofsky (Requiem Para Um Sonho). Cena de Max Cohen, gênio da matemática, em seu apartamento claustrofóbico, frequentemente invadido por formigas.
O filme é muito interessante e permite diversas interpretações. Vale a dica.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Sonho


Eu era uma revolucionária. Sentia-me grande coisa com aquela espada, até o momento que subi as escadas e me deparei... comigo mesma. O tiro do soldado inimigo foi certeiro.
Chorei muito naquele dia. Minha escola estava sendo destruída. Um campo enorme de pequenas construções e árvores plantadas ordenadamente tomaram o lugar daquilo que um dia fora um lar para mim. Eu assistia tudo do alto de uma torre, chorando até me acabar, e não me importava com todos que corriam de volta. Sabia que ia me ferrar se ficasse ali chorando... E fiquei, do mesmo jeito.
Eu morri. Foram anos, ou talvez segundos, no meio da luz, me perguntando vagamente por que eu não virei a espada de forma que a arma caísse da mão do soldado. Às vezes alguma voz dizia alguma coisa, mas eu não percebia, até que uma em especial falou... Para falar a verdade, não me lembro mais o que ela disse. Só sei que assim eu pude acordar novamente. Onde era aquele lugar em que acordei?
Não foi tão ruim estar morta. Foi a primeira coisa que pensei. Foi incrivelmente natural e... Sim, eu era quase um nada com um pingo de consciência naquele momento, mas por ser um nada... o que me importava?
Hoje mesmo eu ia dormir, cheguei a me levantar do computador e a derramar um copo de suco de laranja no chão - talvez tudo isso seja uma grande e deslavada invenção. Chegaria a ser real... Enfim. Tudo tem certa relação. Há noites não durmo bem. Tenho pesadelos, sono inquieto, travesseiro duro, e fico com raiva da minha mãe quando estou sonâmbula, pensando que ela roubou todos os travesseiros bons. De fato, os travesseiros da minha mãe são bem macios, eu gostava de dormir no quarto dela quando era uma criança justamente por esse motivo.
Essa noite eu não queria me deitar... Porque, bem, sabia que não ia dormir. Sinto-me velha e cansada. Podre, com as juntas rangendo, dolorosas... Entediada. Mas não quero fazer nada, nem sair, nem ficar, nem trabalhar, nem assistir a um filme, ou ler, estudar, conversar... Não sei o que eu quero. Não estou me sentindo sozinha, não mesmo. Nem acompanhada. Somente vazia. É como se eu tivesse levado um tiro de um soldado inimigo. Quem sabe esse soldado tenha uma longa cicatriz em sua boca, como um grande sorriso.
O que importa é que meus ouvidos dão pontadas agudas de dor, enquanto imploram por mais. Fazem eu me esquecer de quem eu sou e do que sinto...
Mas bastou uma nota...

Essa noite eu sei que vou dormir bem."


escrito em 20/07/08 §
(porcamente escrito)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

Trecho VI

“Raja espiou por cima dos ombros, entediado. Em meio à luz bruxuleante da lareira, podia reconhecer a silhueta de Ieva – parado em frente ao Grande Relógio, esperando. Por um vago instante, a lembrança de um salão escuro e silencioso pareceu ganhar vida: e sentiu frio, a despeito das chamas que o aqueciam.
- Quero sair daqui. – disse em voz alta, mas esta não apareceu alcançar Ieva, que permaneceu imóvel e silencioso.
- Ei – insistiu Raja. Não obtendo resposta, sentiu a impaciência que o atormentava há dias reaparecer com força, e golpeou a mesa a sua frente com o punho fechado, perguntando com raiva: – O que está olhando?!
- Por que quer sair? – perguntou Ieva.
Dessa vez, Raja foi calado, percebendo ter caído em uma armadilha. Permaneceu observando as costas de Ieva, perguntando-se quantas vezes cairia no mesmo truque. Por fim, correu as mãos pelo rosto com força e as deixou descansar ali, escondendo seus olhos do salão.
- Até desanima tentar falar com você. – murmurou entre dentes. - Como você consegue ser insuportável...
Ieva voltou-se para ele, mas não parecia ofendido: na verdade, sorriu abertamente. Raja já estava começando a se acostumar com aquele sorriso – o que não o tornava menos desagradável.
- Não fique irritado: afinal, não precisa responder. – disse Ieva, sua voz soando serena.
Raja sorriu amargamente.
- Você pode até pensar que soa convincente com esse tom de voz de quem está disposto a me ajudar, mas eu não sou idiota. Sei muito bem qual é o seu jogo.
- Muito bem? – Ieva ergueu as sobrancelhas. – Então devo ter me enganado.
- O que quer dizer? – perguntou Raja nervoso, observando-o atentamente.
Ieva deu de ombros e caminhou até uma garrafa negra que se encontrava no console da lareira: “Imaginei que pensasse que sou um dos Canutos.” Apanhando a costumeira taça de cristal, despejou em seu interior o líquido rubro da garrafa. Vendo que Raja ficou em silêncio, acrescentou suavemente: “Você é extremamente previsível... É exatamente por seguir seus impulsos tolos que você está aqui, ou ainda não percebeu? Sugiro que se acalme.”
- Você não está em posição de me pedir uma coisa dessas. – disse Raja, tentando manter uma voz firme e cordial. – E pare de agir como se me conhecesse. Você não sabe quem...
- Sei. – interrompeu Ieva, seus olhos fixos na lareira. – Sei muito bem, Raja. Você é uma pessoa egoísta, que não sabe cuidar de si mesmo e que nos últimos anos manteve exatamente a mesma mentalidade tola e fraca de uma criança. O pior de tudo é que se ama tanto, idolatra cegamente este interior de fragilidades... Consegue até mesmo sacrificar os outros para se manter são e construir uma imagem própria idealizada. Pensa que esconde tudo isso? Qualquer um pode ver as rachaduras dessa casca que você pensa ser tão bem trabalhada.
Raja não se permitiu olhar para baixo, nem queria que seu rosto mostrasse nada além da inexpressão. Um misto furioso de sentimentos passava-se por sua cabeça, pois repentinamente odiou Ieva, odiou tudo o que havia escutado, pois era tudo uma mentira ridícula, uma fala ensaiada destinada a deixá-lo impotente e submisso. Sabia que Ieva queria apenas sentir que era superior. Sabia que estava frustrado por achá-lo tão idiota: era ate ridículo, amargamente engraçado... Esboçou o início de um sorriso irônico... Era cômico...
E sentiu-se vazio, ao perceber que era tudo verdade.
Baixou a cabeça. Odiou-se internamente por isso. Então olhou vagamente para Ieva, que levava lentamente a taça de cristal aos lábios... Fixou seus olhos no líquido escuro no interior da taça.
- O que é isso? – perguntou com desagrado, provavelmente pela milésima vez desde que se conheceram.
- Quer? – ofereceu Ieva com o sorriso de sempre.
Raja largou-se na cadeira e deixou a cabeça pender sob o pescoço, não se preocupando em responder.”

escrito em 21/07/09 §

terça-feira, 14 de julho de 2009

Trecho V

" (...) Chegando ao topo da ladeira, deparou com uma descida gigantesca e bastante inclinada. E lá embaixo, outra parte da cidade, recortada contra o crepúsculo.
Não conseguiria descrever porque a simples imagem apertou seu peito com uma pancada. Perdeu o ritmo da respiração. O ar estava pesado... poderia até mesmo esmagá-lo...
De repente, uma figura emergiu de uma esquina um pouco à sua frente. Alexandre estacou, imóvel.
Era a garota de cabelos loiros.
- Oi. – ofegou ela, também paralisada. Seu peito subia e descia e tinha o rosto corado. Parecia ter vindo correndo.
- ... Oi. – murmurou Alexandre, também ofegante, apesar de não ter corrido. Antes que chegasse a se perguntar por que a garota estivera correndo, pensou que deveria achar estranho vê-lo ali. Será que ela diria alguma coisa? Perguntaria por que saíra de casa?
Não, ocorreu ao garoto... Perguntaria por que naquele dia tivera vontade de sair.
Ela não sabia de nada. Aquela menina burra... Não o conhecia, nem sabia seu nome... Por que, afinal, o cumprimentara? Por que queria se intrometer em assuntos que não compreendia?
A garota só o observava, quieta e sem expressão em seus olhos castanhos. Alexandre, subitamente vendo-se irritado, não ligou se soaria mal educado ao perguntar:
- O que foi?
A menina deu de ombros.
- Nada. Só estava olhando.
O garoto continuou imóvel, e então suspirou. Bem, não era isso o que esperava. Mas ainda estava um pouco irritado, e deu de ombros também, só para fazer alguma coisa.
Logo, resolveu seguir seu caminho. Aquela conversa já o perturbara o suficiente, apesar de não encontrar um motivo real para alegar este fato.
Porém, ao dar as costas para a menina, se deu conta de que a sensação de sufoco que passara ao chegar ao topo da ladeira havia desaparecido."

escrito em 07/06/07 §


tenho que rever todos os textos, esse em especial...

quinta-feira, 25 de junho de 2009


"Beijou-a no pescoço e na boca. O pescoço cheirava a âmbar, a boca cheirava a tabaco ordinário. Marcelle sentou-se a beira da cama e pôs-se a olhar as pernas enquanto Mathieu se despia.
- Que é isto? - indagou Mathieu.
Havia em cima da lareira uma fotografia que ele não conhecia. Aproximou-se e viu uma jovem magra, penteada como um rapaz, e que ria com um ar ríspido e tímido. Envergava um casaco de homem e calçava sapatos de salto baixo.
- Sou eu - disse Marcelle, sem erguer a cabeça.
Mathieu voltou-se. Marcelle levantara a camisola sobre as coxas gordas. Estava curvada e Mathieu adivinhava sob a camisola a fragilidade dos seios pesados.
- Onde é que encontraste isto?
- Num álbum. É do Verão de 28.
Mathieu dobrou cuidadosamente o casaco e colocou-o no armário ao lado dos sapatos. Perguntou:
- Então agora andas a mexer nos álbuns de família?
- Não, não sei, mas hoje tive vontade de encontrar coisas da minha vida, de ver como eu era antes de te conhecer. Trá-la cá.
Mathieu pegou na fotografia e ela arrancou-lha das mãos.
Sentou-se ao lado dela. Marcelle teve um arrepio e afastou-se um pouco. Olhava a fotografia com um sorriso vago:
- Como eu era engraçada - disse."


(A Idade da Razão, Jean-Paul Sartre)



terça-feira, 23 de junho de 2009

Trecho IV

“Aqui ninguém me conhece.
É um lugar bastante agradável, principalmente pelo fato de ser quase deserto. Alguns não gostam disso, mas considero quase um paraíso, depois de ter vivido dezenove anos cercado de gente, quase sem conseguir respirar.
E aqui faz muito sol. É... Bem diferente de lá.
Os dias têm passado devagar. Não há muito a ser feito no bar, o pessoal da vila não é muito chegado a bebidas, por causa da religião, além de quase todos serem muito caseiros. E viajantes quase não passam...
Apesar disso, hoje me dei conta de que não tenho o direito de me tranqüilizar. Simithr perguntou-me pela manhã o que pretendo fazer de minha vida. Fiquei ofendido com a pergunta, pois senti que estava dando um toque para eu me mandar. Na verdade, sei que ele não quis dizer isso, mas precisei arranjar algum motivo para brigar.
Sempre me esqueço que terei que ir embora daqui, mesmo tendo chegado há tão pouco tempo. Foi tempo o suficiente para me refugiar daquelas lembranças... Por isso, fiquei furioso.
Ou, talvez, nem seja exatamente por isso. De qualquer jeito, sei que o velho não tem culpa, seja qual for o motivo.
E pra falar a verdade, é isso o que quero. Partir. Não quero abusar mais da paciência dos outros. O problema é para onde ir... Não tenho mais uma casa para voltar, e se muitos me virem andando por aí, na certa vão começar a me caçar. E posso estar exausto, sem vontade de lutar e me esforçar outra vez, mas me recuso a ser preso. Sei claramente que, ao menos isso, eu não mereço. Mesmo que, na realidade, eu não me importasse nem um pouco com todas aquelas pessoas... Mesmo que eu mal consiga me odiar por isso... e por todo o resto.
Se bem que a convivência com alguém que ainda não me dá as costas, mesmo sabendo que fiz algo sério, e nem mesmo exige saber o que foi... com certeza é pior do que viver em uma prisão. Não consigo encarar o velho. Por sinal, nunca pensei que fosse tão difícil encarar alguém... E a boa vontade dele, que deveria ser um consolo para mim, só está me sufocando.
Se eu tivesse um pouco mais de coragem, arrumaria minhas coisas e iria embora, sem nem me despedir. E fugiria para algum lugar... qualquer um. Onde existisse ninguém. Não era isso o que eu tanto desejava, mesmo antes de tudo acontecer? Não odiava minha vida com todas as minhas forças, e desejava ardentemente uma mudança, qualquer que fosse?
Sempre foi assim... mas eu nunca fiz nada.”


escrito em 27/03/07 §

sábado, 20 de junho de 2009

Trecho III

esqueci de mencionar: o Trecho I foi escrito no dia 24/08/2006. O Trecho II foi escrito em 26/11/2006.

“E lá estava ela, uma figura envolta em branco.
Não sei por quanto tempo permaneci só a observando. Me parecia algo quase sobrenatural. Mas pelo modo como estava sentada... O modo com que seus cabelos caíam sobre seus ombros, como uma cascata... eu podia sentir como estava viva. Como encontrava uma grande dificuldade em dizer qualquer coisa. Como mais difícil ainda era permanecer em seu silêncio sufocado. Como era intensa a dor que estava sentindo...
E eu não soube o que fazer. Porque por impulso corri até o palácio, esperando encontra-la desse jeito, mas mesmo assim a cena me surpreendera de tal maneira que estava paralisado. Pois sabia que uma dor como aquela jamais me atingira.
Era algo tão humano... Tão fácil de se sentir...”

escrito em 06/12/2006 §

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Trecho II

“Próxima a serra da montanha de Airot, havia uma pequena vila. Localizada no interior do estado, era tão pequena que não deveria possuir mais de quinze casas. Sendo encontrada ao lado de uma estrada de terra, em geral era ocupada por viajantes que lá passavam uma noite ou duas para descansar. Porém, o número de viajantes era escasso. A estrada da montanha era conhecida por seus deslizamentos, e, portanto, considerada perigosa: assim, poucos se atreviam a percorrê-la.
Dessa forma, os moradores da vila, que dependiam da agricultura e do dinheiro dos viajantes para sobreviver, eram pessoas extremamente simples. Não havia mais de um mercado na vila, e apenas uma pousada.
Porém, próxima do cemitério local, havia uma construção que parecia completamente fora de lugar – um bar. Uma placa presa em uma de suas desgastadas paredes anunciava em letras garrafais: “O’Connel”. Logo abaixo da placa, havia uma porta de madeira que costumava encontrar-se aberta, pois sua maçaneta estava quebrada.
Como os clientes do bar costumavam ser pessoas bastante simples, como os moradores da vila ou os viajantes, que em sua maioria eram mercadores, o dono do bar e seu único garçom não se incomodavam em manter o local arrumado. Do lado de dentro, as mesas de madeira ficavam espalhadas desordenadamente pelos lados. Já as cadeiras costumavam ficar apoiadas sobre as mesas, como forma de não atrapalharem na limpeza do chão – limpeza esta que parecia não existir, pois o chão era coberto de migalhas, poeira, e, dependendo da movimentação do bar, cacos de vidro e bebidas derramadas.
O balcão não era muito diferente. Feito de madeira, assim como todos os móveis que se encontravam ali, sua superfície era úmida de bebidas. As altas cadeiras que o circulavam tinham o acento forrado com almofadas furadas de couro marrom (que um dia talvez tivesse sido vermelho). O balconista, também dono do bar, vivia passando um pano encardido sobre os móveis, mas parecia apenas piorar a situação com isso. Era um sujeito baixo. Usava sempre a mesma camisa listrada. Seu cabelo castanho já mostrava alguns sinais de velhice, sendo esbranquiçado e ligeiramente calvo, e suas sobrancelhas grossas apoiadas em seus olhos castanhos quase pretos, lhe davam a impressão de ser um homem severo e mal-humorado. Mas a verdade é que era uma pessoa bondosa e paciente, que não poupava sorrisos e boa educação em momento algum. Seu nome era Simithr Ralli.
As paredes do bar eram vazias, exceto por alguns velhos quadros de homens usando chapéus particularmente estranhos. Estes homens faziam parte de uma família nobre, que por gerações havia sido milionária – mas apesar do título de nobreza ter permanecido, a família decaíra após anos de riquezas. Seu último membro restante era Simithr. Olhar para os quadros lhe trazia profunda tristeza, mas se recusava a retirá-los dali, apesar de seus clientes aconselharem-no de fazê-lo freqüentemente. A única pessoa que não lhe dava estes freqüentes conselhos era o garçom do bar.
Parecendo tão fora de lugar quanto o bar naquela pequena vila, o garçom era um jovem alto, em seus dezenove anos de idade, com um belo porte físico. Seu nome era Raja Kraven. As garotas da vila que apareciam no bar de vez em quando, certamente só o faziam para vê-lo: e tinham um bom motivo para isso, pois o garçom possuía um rosto muito atraente, cabelos loiro-escuro lisos, um sorriso charmoso e olhos cinzentos. O mais impressionante era que tinha uma aparência muito limpa, para o meio em que vivia. Seu paletó preto lhe dava um ar de inteligência e charme invejáveis.
Devido a sua aparência, as pessoas não imaginavam que fosse um sujeito fechado, muitas vezes até arrogante. Não se importava em ser grosso e mal educado com qualquer um que o incomodasse, mesmo um cliente.
Apesar de serem pessoas muito diferentes, o dono do bar e seu jovem garçom se davam muito bem. Havia boatos de que eram parentes distantes secretamente, pois isso justificava que Kraven também não apoiasse que tirassem os quadros da família Ralli das paredes do bar. O fato era que, estranhamente, ninguém conseguia lembrar ao certo do dia em que os dois haviam aparecido na vila, há três anos. Era algo que despertava a curiosidade de todos, e por isso perguntavam a Simithr e a Kraven com freqüência sobre o ocorrido, mas nunca recebiam uma boa resposta: ambos sempre desconversavam, fingiam não ouvir ou respondiam “É uma longa história”. De modo que, com o tempo, as pessoas cansaram de perguntar e o assunto foi meramente esquecido.”

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Trecho I

“Ela me perguntou o que eu achava do vestido. Respondi que era bonito, mas não entendo dessas coisas. Geralmente eu teria apenas encolhido os ombros... Só que o elogio saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar. Deve ser porque ela me perguntou com um sorriso tão alegre... Gosto muito disso, do fato dela estar sempre sorrindo. Nunca a vi triste, nunca a vi chorar. Pergunto-me se esconde mágoas... Sei que sim. Mas nunca conheci alguém assim, um labirinto entre risos e olhares. Olhares, pois de vez em quando sinto algo diferente no modo com que olha o mundo à sua volta. Como se fosse de uma maneira mais profunda, como se desse um valor especial a tudo e todos. Iëva já comentou isso comigo, e é verdade.
Pensando melhor agora, deve ser por isso que os dois se dão bem: de uma maneira ou de outra, ambos são estranhos. Iëva por ter um vasto conhecimento sobre quase tudo o que existe, não sei como aprendeu tanto em apenas dezesseis anos de vida.
E ela, por ser tão... A palavra me foge agora, imagino que "simplória" não se encaixe muito bem... Eu diria que ela é simplória demais em sua complexidade. Eu não entendo, não entendo o que ela faz para me entender tão bem, para agir da forma certa em todas as situações, mesmo sem querer... E sempre com tanta facilidade.
Gostaria de entendê-la melhor... De me aproximar mais... De saber como fazê-lo...
De qualquer forma, às vezes me pego só a observando. Gosto de fazer isso, me trás certa paz... Não sei ao certo por qual motivo. Só sei que quero ter essa paz todos os dias, ao meu lado, em qualquer ocasião... Seria capaz de tudo para isso, pois acho que minha dor ao perdê-la, afinal, seria o mesmo que perder esse todo por completo, eternamente.”